A solidariedade dos médicos.

 

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça e membro da Associação Juízes para a democracia.

 

Quando tinha meus 12 anos costumava ser coroinha nas missas das 10 horas que Frei Vicente rezava todos os domingos na Clínica São Vicente, na Gávea. Li outro dia uma declaração do cardiologista, médico consagrado e dono da clínica uma declaração que me estarreceu. Disse Dr. Luiz Roberto Londres que o verdadeiro médico só com uma conversa tem 90% de chance para um diagnóstico correto. E que atualmente os médicos não mais examinam os pacientes, limitando-se a prescrever remédios e exames porque os laboratórios dão comissão para os médicos e os planos de saúde ditam as regras da atividade médica.

Essa denúncia, grave e corajosa merecia o mesmo empenho que o Ministério Público está dedicando ao combate à corrupção porque atinge a vida e a saúde de milhões de pacientes sujeitos a essa negociata ora denunciada. Mas não foi essa a grande notícia do Dr. Londres, e sim o movimento de solidariedade dos médicos que se dedicam através do Instituto Medicina e Cidadania a ofertar sua inteligência e trabalho aos mais necessitados. Além disso tem estimulado jovens médicos a essa prática solidária que ensina aos novos médicos a agirem com honestidade, transparência, dignidade, espírito de amizade e compaixão com os mais necessitados.

Hipócrates inspirou a criação desse serviço que cuida da saúde do ser humano e coletividade, sem discriminação de qualquer natureza. Por tanto o alvo da atenção de todo médico deve ser a saúde do ser humano em benefício do qual deve agir com todo zelo e o melhor de sua capacidade profissional. Esse exemplo de solidariedade já vem de longe de nossa história quando em 1562 o Padre José de Anchieta fundou a Santa Casa da Misericórdia no Rio de Janeiro, Portanto há 535 anos que médicos consagrados e renomados se dedicam a cuidar dos pacientes pobres gratuitamente.

Hoje com grandes dificuldades financeiras, a Santa Casa de Misericórdia ainda conta com os melhores médicos que dedicam seus serviços a esse gesto de solidariedade. Com uma história rica e exemplar, onde também são pioneiros nos cuidados com as crianças abandonadas do Brasil, inspiram a criação de outros serviços voluntários e gratuitos nesse momento de crise onde as maiores vítimas são os mais vulneráveis e pobres.

 

 

 

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Museu da escravidão e da liberdade.

 

Siro Darlan de Oliveira, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e membro da Associação Juízes para a democracia.

 

Há mais de cem anos foi abolida a escravidão no Brasil, mas seus efeitos ainda estão estampados na sociedade brasileira como uma tatuagem a lembrar o horror dessa prática. O holocausto, palavra que designa o extermínio dos judeus europeus durante a segunda guerra mundial é lembrado permanentemente através de eventos e museus espalhados por todo mundo como forma de preservar a memória e evitar que se repita.

Outro holocausto histórico que durou mais de quatro séculos é a escravidão e o sacrifício dos africanos que foram arrancados de suas nações de origem, separados de sua cultura, religião e família para atravessarem o Atlântico em condições adversas e cruéis para servirem de escravos para os colonizadores e a elite colonial. Se a escravidão foi abolida há mais de cem anos, suas consequências ainda clamam por justiça social e o açoite ainda se faz presente por ações e omissões do poder público e da sociedade que ainda destina ao pelourinho os descendentes desse povo tão sofrido.

A ausência de políticas públicas inclusivas e decisões judiciais nitidamente preconceituosas como os mandados de busca e apreensão coletivos e indiscriminados destinados aos guetos empobrecidos onde residem em sua maioria negros e pobres, demonstra que ainda não estamos libertos dessas práticas dos capitães do mato. Assim como fazem os irmãos judeus, está na hora de erguer um museu para coletar, preservar e lembrar as memórias dolorosas desse passado histórico tão vergonhoso para promover o estudo e o debate em torno desse tema tormentoso e evitar que ele continue frutificando em nosso meio.

A Casa da Cidadania que renasceu com a ação protetora de Joãozinho Trinta que acolheu nesse espaço as crianças e adolescentes remanescentes da Chacina da Candelária dando a eles abrigo, alimentação e educação. E, mais tarde a ação cidadã de Betinho que conscientizando a sociedade sobre a necessidade da solidariedade como instrumento essencial para matar a fome daqueles que clamam por alimentação, educação, cultura e justiça utilizando do mesmo espaço. Bem próximo está o Cais do Valongo, onde aportaram milhares de africanos arrancados de suas raízes para serem sacrificados pelos horrores da escravidão.

Ainda que não seja um resgate, pelo menos essa iniciativa de criar o Museu da Escravidão e da Liberdade pela Prefeitura do Rio de Janeiro no mesmo espaço onde tanto se exercita a cidadania, o Edifício Docas Pedro II, já é um início que prenuncia a necessidade de se resgatar essa dívida histórica e promover a integração social, democrática, igualitária e real de nosso povo, sem qualquer resquício do velho preconceito racial. MEL – Museu da Escravidão e Liberdade deve surgir para adoçar nossa história desse amargor que somos obrigados a levar como se fosse um pecado original a macular toda e qualquer tentativa de alcançar o marco civilizatório da igualdade, fraternidade e legalidade.

 

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O morro não tem vez.

O morro não tem vez.

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e membro da Associação Juízes para a democracia.

 

O aniversário de morte de Getúlio Vargas me fez meditar sobre o atual estado de perdas de direitos que estamos enfrentando na sociedade brasileira. Na magistratura se fala que somos a bola da vez porque estamos na berlinda do ódio dos políticos que se acham vítimas das ações do Ministério Público e do Judiciário. No operariado a tristeza de ver todos os direitos sociais conquistados sendo tungados pela ação legislativa que procura servir os interesses do capital. Se nós magistrados cochilamos quando do primeiro assalto aos direitos constitucionais e aplaudimos a derrubada de uma presidente honesta, devíamos saber que após um golpe permitido pelo judiciário conivente haveria mais o que perder.

No Rio de Janeiro, enquanto o judiciário continua deixando de ver e coibir os abusos policiais, o exército brasileiro, sagrada instituição com finalidades de proteção ao estado de direito e aos interesses da Pátria, é transformado em polícia para caçar os direitos dos habitantes das comunidades pobres e da periferia, sob o falso pretexto de caçar bandidos. Faz um papelão maculando suas tradições, pois além de deixar vazar suas operações são pífios os resultados da ação de polícia. Mas, não nos esqueçamos, todo esse abuso foi autorizado, ao arrepio da Constituição por uma juíza. O povo pensa que tudo que um juiz autoriza é legal e isso é um engano.

Mas quando derem voz ao morro, e parece que o povo das favelas já estão se organizando através da Frente Popular das Favelas – CUFA, toda cidade vai literalmente sambar. As ideias de respeito as diferenças étnicas, sociais, de gênero e de democracia crescem e espalham-se e empolgam as massas na luta pela reconquista da liberdade. A consciência do papel grandioso e importante das organizações do operariado, unirá novamente a população e ninguém poderá deter o retorno à legalidade, sem a crueldade e o cinismo das instituições que a tudo assistem passivamente como se não fizessem parte dessa mesma sociedade e como se não fossem também vítimas dessa ação escravocrata do povo trabalhador.

A resistência organizada e pacifica faz-se necessária para que através de um diálogo permanente e amplo possamos reverter essa política de poucos a dominar a maioria silenciosa, sacrificando milhões de homens e mulheres que não têm acesso ao processo educacional, a uma saúde que garanta o acesso de todos à propriedade como bem comum. Democratizar o processo de plantação e consumo com o direito às terras democraticamente distribuídas, sem que haja latifúndios improdutivos, nem a destruição da natureza pela cobiça dos monetaristas e materialistas. Esse é o ritmo que todo povo tem o direito de sambar: a igualdade dos direitos e acesso aos bens garantido a todos os brasileiros.

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LEIAM O QUE ACONTECE COM OS VALENTÕES QUE ATINGEM A HONRA ALHEIA:

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OS VALENTÕES DO FACEBOOK

Os valentões do Facebook.

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e membro da Associação Juizes para democracia.

 

A novela ensina como ser bandido, esconder armas, enganar a polícia e se dar bem. Nas redes sociais os valentões anônimos se aproveitam do biombo da telinha para assacar ofensas contra terceiros. Em 2015 fui injuriado no Facebook por um senhor que não me conhecia, assim como eu também nunca o havia visto. Como faço em todos os casos, processei-o criminalmente e poderia ter sido condenado a uma pena de 1 a 6 meses de prisão. O cidadão compareceu em juízo cabisbaixo, humilde e humilhado afirmando que o fizera como um desabafo. Proposta a retratação pelo magistrado, como não desejo o mal que ele me causou a ninguém aceitei, e ele desculpando-se ficou de se retratar publicamente pelo mesmo meio de comunicação onde me injuriou.

Católico que sou, e praticante, sofri muito ao ver no Facebook de um padre que não conheço uma frase caluniosa a mim dirigida. Claro que não vou deixar barato e, com muita tristeza por ver um sacerdote cuja missão apostólica e espargir o bem e as palavras do evangelho trair seu compromisso para ofender gratuitamente um irmão de fé. Também já distribui ação penal e cível, para que perante a Justiça repare o mal que me causou.

Uma parte, advogado em causa própria, também resolveu por meios impróprios me coagir com afirmações falsas e injuriosas. Apenas estou aguardando o desfecho de seu processo para exigir a reparação por tais ofensas.

Todos esses fatos, exceto o primeiro, tiveram origem após uma reportagem tendenciosa e falaciosa produzida com a intenção de me expor publicamente por uma emissora de televisão que não respeita a dignidade da pessoa humana e pensa que pode destruir impunemente a reputação daqueles que não rezam na sua cartilha. Certamente também será chamada a reparar mais esse dano, já que é reincidente em suas ações injuriosas e também na condenação por fatos semelhantes. Mas os fatos aqui narrados apenas demonstram os efeitos deletérios de reportagens direcionadas que empoderam pessoas ingênuas que tomam mentiras como verdades e passam a repeti-las irresponsavelmente. É bom que saibam que todo ato tem seu efeito e consequências antes de assumir como suas falsidades espalhadas por outrem.

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MEUS ÍDOLOS.

Meus ídolos.

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça e membro da Associação Juízes para a democracia.

 

O grande poeta Cazuza cantava que seus heróis haviam morrido de overdose. Saudosista conversava com meu filho Guilherme no dia dos pais e do aniversário dele, que é um artista do cinema, sobre a atual pobreza cultural dos novos tempos. Dizia orgulhoso que minha geração foi das mais ricas em cultura e esportes. Enumerei de memória apenas os grandes ídolos, ainda vivos que iluminaram a minha geração, quase todos com mais de setenta anos: Chico Buarque, Caetano Veloso, Roberto Carlos, Gilberto Gil, Baby do Brasil, Elza Soares, Gal Costa, Angela Maria, Elba Ramalho, Ney Matogrosso, Milton Nascimento, dentre outras feras da MPB.

Nas artes cênicas temos gente como a “imortal” Bibi Ferreira, Fernanda Montenegro, Tarcísio Meira, Gloria Menezes, Marcos Nanini, Tony Ramos, Lima Duarte, Antonio Fagundes, Tônia Carrero, isso para falar apenas dos vivos, já que entre os mortos há nomes ainda maiores nesse século culturalmente tão rico. Nos esportes, além dos grandes títulos mundiais conquistados coletivamente no futebol, no vôlei, na natação e no atletismo, tivemos Pelé, Garrincha, Zico, Marta, Rivelino, Paulo Cesar Caju, Gerson, Robson Caetano, Maria Lenk, Aurélio Miguel, Lars e Torben Grael, Ayrton Senna, Joaquim Cruz, Ademar Ferreira da Silva, Maria Ester Bueno, Oscar Schmidt, Gustavo Kuerten e Cesar Cielo. Hortência, Gustavo Borges. Que orgulho dessa geração!

Hoje vivemos uma pobreza política, social, cultural e ética que dá pena. Embora ainda tenhamos bons valores nos esportes e na cultura, não há comparação entre esses profissionais. O saudosismo é próprio dos que ficam velhos, mas é inegável que o século que passou nos trouxe muitas alegrias. Até mesmo na seara política, ainda que tenhamos testemunhado duas ditaduras, a de Vargas e a militar e empresarial, os políticos eram muito mais bem preparados, cultos e respeitados em sua diversidade e fidelidade partidária. Hoje os interesses particulares e corporativistas se sobrepões aos interesses coletivos da Nação e do povo sofrido.

Ulisses, Brizola, João Goulart, Magalhães Pinto, Paulo Freire, Darci Ribeiro, Luis Carlos Prestes, Juscelino não caberiam nesse Congresso pobre e que nos enche de vergonha. O único caminho capaz de restaurar esses valores é a valorização real da educação para motivar o nascimento de lideranças que coloquem o Brasil nos trilhos de uma grande Nação que investe no seu povo respeitando os direitos fundamentais e sobretudo promovendo uma melhor distribuição de rendas e acesso aos bens e serviços.

 

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UM LIVRO MUDA A VIDA DE UM HOMEM.

Um livro muda a vida de um homem.

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça e membro da Associação Juízes para a Democracia.

 

 

 

O juiz João Marcos Buch, responsável pela execução das penas em Joinville, Santa Catarina, além de realizar um excelente trabalho de ressocialização e dignificação da pessoa humana em cumprimento de pena, lançou recentemente o segundo volume do livro “Contos tirados de mim: a literatura do cárcere”. A obra foi escrita por detentos em cumprimento de pena e juízes convidados e a noite de autógrafo realizada na Penitenciária Industrial de Joinville foi mais um resultado positivo da ação do judiciário local para impor o respeito à dignidade da pessoa humana através do Projeto de remição da pena pela leitura.

O objetivo da execução penal é proporcionar a harmônica integração social do reeducando, conforme letra do artigo 1º da Lei de Execução penal, bem como o direito à assistência educacional, nos termos do art. 41, VII, da mesma lei. O Conselho Nacional de Justiça e o Conselho Nacional de Política Criminal promoveram através da Resolução nº 3 do CNPCP e alterações no artigo 126 da Lei de Execução Penal, com respaldo na Lei 12.433, de 29 de junho de 2011, assim como a Resolução nº 2/2010 do Conselho Nacional de Educação disciplinaram a educação de jovens e adultos em situação de privação de liberdade.

Com o objetivo de proporcionar condições dignas de cumprimento da pena através da educação torna-se necessário trocar os momentos ociosos por leitura e estudo, proporcionando o resgate da autoestima e o direito ao conhecimento e desenvolvimento da capacidade crítica. Como diz a música do poeta Lupicínio Rodrigues; “ O pensamento parece uma coisa à toa. Mas como é que a gente voa quando começa a pensar”. A literatura pode despertar a empatia e expandir o universo humano; a leitura contribui para a educação e que a educação dignifica o homem. Como afirmou o líder ativista negro Maicon X “ As pessoas não compreendem como toda a vida de um homem pode ser mudada por um único livro”.

É sabido que a educação, direito de todos e dever do Estado visa ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (art. 201 CF). A oferta de leitura, educação e a consequente remição da pena é mais uma forma de oportunizar a ressocialização da pessoa privada de liberdade.

A lei prevê que o preso poderá remir até quatro dias de pena por cada livro lido pelo preso e feita uma resenha que será avaliada por educador credenciado. No entanto, com a crise financeira e política em que se encontra o estado brasileiro, essa oportunidade tem sido escassa. Não há agentes públicos da área de educação em quantidade suficiente para fazer essa avaliação das leituras realizadas.

É necessário compreender que o apoio a esse programa educativo interessa a toda a sociedade porque a educação é o único caminho para uma eficaz construção de uma sociedade mais solidária e para a democratização do conhecimento. Só demonializa o próximo aqueles que não desejam a redução da violência porque lucram com ela.

 

 

 

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PORQUE NÃO EU?

                        PORQUE NÃO EU?

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça e mebro da Associação Juízes para a democracia.

 

                        O escritor Lima Barreto que está sendo homenageado por sua obra na FLIP de 2017 afirmou “Esse obsoleto domínio à valentona, do homem sobre a mulher, é coisa tão horrorosa, que enche de indignação”. Apesar de toda legislação repressora e protetiva do planeta a prática tem demosntrado muita ineficácia. Na Europa, com todo seu avanço, uma em cada cinco mulheres tem sido vítimas de violência doméstica. No Brasil, com onze anos da Lei Maria da Penha, estamos testemunhando ainda muitos equívocos que não combatem a violência, mas impõe processo de criminalização das relações pessoais, sem deter a violência crescente.

                        Se é verdade que no Brasil a evolução legislativa de igualdade de gênero só avançou com o advento da Constituição de 1988, a Lei Maria da Penha ao estabelecer a proteção apenas da mulher no âmbito da violência doméstica, representou um atraso na proteção das relações da convivência pacífica no ãmbito do lar, deixando desprotegidos os conjuges e companheiros masculinos e homoafetivos, igualmente vítimas do mesmo mal. Trata-se de um tratamento preconceituoso que a Constituição não admite ao estabelecer que homens e mulheres são iguais em obrigações e direitos. Se a intenção de setores feministas foi apenas o de proteger as mulheres, deu um tiro no pé com esse argumento machista, que significa admitir que o homem (por ser mais forte) não precisa de proteção.

                        Em Potugal, a legislação foi mais abrangente e mais protetiva da dignidade da pessoa humana, independente do gênero, uma vez que busca a proteção dos cônjuges, ex-cônjuges, namorados, progenitores e pessoas indefezas em razão da idade, deficiência, doença, gravidez ou dependência econômica, desde que haja coabitação. Por outro lado, a legislação de além mar procurou fortalecer as medidas de prevenção através de serviços interdisciplinares, que sem esquecer a necessária punição para os agressores buscam uma efetiva proteção às vitimas, apostando também na recuperação dos agressores.

                        Ao criminalizar as relações familiares, fornecemos aos aproveitadores oportunidades do uso indevido da lei para ações de falsas acusações e alienações parentais como ferramenta de agressões mútuas. A justiça acaba servindo de intrumento para essas agressões. Ao entender que a mulher é a parte mais fraca na relação, a jusrisprudência tem acirrado os conflitos impedindo até mesmo que prováveis reconciliações se tornem impeditivas da reconstrução da paz social, verdadeiro fim da justiça.

                        A violência doméstica é um atentado aos direitos dos mais frágeis e desprotegidos. Portanto é necessário que essa proteção seja mais abrangente, e não se pode admitir, diante dos números covardemente excessivos da violência perpetrada contra crianças e adolescentes, esses fiquem apartados de um sistema de proteção judicial que acolha apenas um gênero de pessoas em detrimento de tantos.

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VENEZUELA LIVRE.

Venezuela livre.

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e membro da Associação Juízes para a democracia.

A construção da libertação da Venezuela pertence a seu povo e exclusivamente ao povo venezuelano, sem qualquer interferência externa seja de que natureza for. A eleição de uma Assembleia Constituinte ali realizada é a expressão máxima de uma Nação democrática que promove suas reformas ouvindo-se o povo. Diferente do golpe que foi dado no Brasil, onde foram ignorados 54 milhões de votos que elegeram uma presidente para fazer prevalecer uma vontade viciada de interesses do capital, de uma mídia entreguista e de interesses internacionais.

Embora vivendo momentos críticos em sua história recente, as conquistas sociais das últimas duas décadas são indiscutíveis. O índice de desenvolvimento humano da Venezuela em 2015 foi de 0,767 o que a colocou na categoria de elevado desenvolvimento humano, tendo se posicionado em 71º entre 188 países. Essa classificação é igual ao da Turquia. Os dados demonstram que de 1990 a 2015, o IDH da Venezuela aumentou de 0,634 para 0,767, ou seja, um aumento de 20,9%. Nesse período a expectativa de vida subiu 4.6 anos e os anos de escolaridade média geral aumentaram 3,8 anos. O rendimento nacional bruto per capita aumentou cerca de 5,4 %.

La como aqui, o crescimento da classe média fez diminuir o empobrecimento e reduzir a pobreza absoluta. A distribuição de cestas básicas, tão criticada por alguns movimentos políticos combateu a fome e estreitou o fosso que separa os ricos dos pobres. Mas isso tem sempre um preço politico e midiático e essa é a razão dessa reação que se dedica a destruir uma das poucas democracias ainda sobrevivendo na América Latina. A Venezuela tem sido vitima da cobiça por suas riquezas naturais pelo capital e por potências que vêm ameaças ao seu domínio prevalente e excludente.

Eventuais desacertos do governo venezuelano resolvem-se pelas vias democráticas e o recurso às eleições só será eficaz se não houver interferência externa. Nota-se no noticiário local e internacional uma grande demonstração de parcialidade da mídia nitidamente jogando a opinião pública contra o governo que o povo venezuelano escolheu através das urnas. O que está em jogo não são os ganhos e perdas de um governo em crise, mas o enfraquecimento da democracia em detrimento dos mesmos interesses que arrasaram a Líbia e o Médio Oriente através de invasões e guerras, assim como pela mesma razão que volta a colocar o Iran em perigo e destruiu o programa do pré-sal brasileiro, ou seja, a ambição das grandes potências econômicas que não suportam a ideia de reduzir as desigualdades sociais e as riquezas do planeta Terra.

Não é sem razão que vemos parte da população batendo palmas ao verem novamente os militares nas ruas com armas quando sua missão constitucional seria garantir a democracia e a vontade soberana do povo.

 

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O populismo midiático e a liberdade de expressão.

O populismo midiático e a liberdade de expressão.

 

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e membro da Associação Juízes para a Democracia.

 

Em Portugal respiro a democracia e o respeito aos direitos humanos e à dignidade da pessoa humana. Alimento uma positiva inveja de viver numa democracia onde se respeitam os direitos naturais e há o respeito às pessoas como sujeitos de direito e centro por onde passam os filtros da democracia que não se limita a respeitar a vontade da maioria através do voto popular, mas, sobretudo pelo respeito ao ser humano por onde deve orbitar a politica e o direito à uma comunicação social respeitosa e democrática. Aqui os órgãos de comunicação social são regulados pela lei e pela Constituição e os abusos no direito à livre expressão são controlados por uma autoridade representativa da sociedade e a noticia é dada com a devida isenção para que os cidadãos sejam bem informados, mas não “domesticados” pela opinião publicada.

Enquanto me alimentava com essas lições da terra de Camões, tomei conhecimento que mais uma vez, uma emissora de televisão, agindo de má fé e violando o sagrado direito de informar com isenção, mentiu ao noticiar que eu havia colocado em liberdade durante um plantão noturno um perigoso miliciano, patrocinado por meu filho. Não é de hoje que essa empresa usa a concessão publica para perseguir seus desafetos. Desde que apliquei a lei para evitar que um bebê fosse violentado em seus estúdios com a repetição de uma cena de violência que causou traumas à criança que essa perseguição persiste.

Na verdade, sem ter a autoridade para fazer qualquer juízo crítico de uma decisão judicial, cujo teor desconhece, ou destorce criminosamente, não coloquei em liberdade o que eles chamam de perigoso miliciano, nem meu filho era advogado do mesmo. E isso ficou esclarecido no procedimento administrativo instaurado pelo Tribunal de Justiça. Na verdade, fundamentado na lei e na Constituição, que essa empresa não respeita, transformei uma prisão provisória em PRISÃO DOMICILIAR, portanto uma prisão pela outra, para tratamento de saúde por razão humanitária como determina a lei.

Nosso país está sofrendo uma crise politico-administrativa e social sem precedentes. Há anos essa empresa vem manipulando a noticia segundo seus interesses econômicos e políticos impunemente. Porque parece que todos têm medo dela. E é pelo medo que ela tenta dominar seus desafetos., ou seja aqueles que não a servem como cordeiros amedrontados. Isso é uma afronta à democracia que precisa cessar. Não se pode usar uma concessão pública para fins particulares. A concessão pertence ao povo brasileiro e, portanto, têm a obrigação de bem servir às causas populares com isenção e honestidade.

O populismo na mídia é um procedimento perverso, antidemocrático e desmerece os profissionais da comunicação social. Houve tempo, na Velha Republica, na época de meu conterrâneo Assis Chateaubriand em que a mídia era usada para corromper, e amedrontar seus inimigos com chantagens e manipulações. O mundo mudou. O Brasil mudou e não se pode mais tolerar que em pleno século XXI, com o boom das redes sociais uma empresa que não explica ao povo as acusações de sonegação fiscal que tanto prejudica as políticas que poderiam estar distribuindo bens e direitos ao povo oprimido, continue a se utilizar do medo para perseguir e coagir aqueles que não lhes são caros.

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