LIXO EXTRAORDINÁRIO

Lixo extraordinário
Jornal do BrasilSIro Darlan
Tamanho do Texto:+A-AImprimirPublicidade O artista plástico Vick Muniz nos levou a uma rica reflexão ao mostrar como se faz de um limão uma limonada. Após sofrer um ato de violência ao tomar um tiro na perna, foi ressarcido do prejuízo por seu agressor, e aproveitou essa pequena fortuna para tentar a vida nos EUA.

Lá chegando, como fazem os imigrantes, procurou ganhar a vida como o que era possível. Trabalhando na limpeza do estacionamento de um shopping, descobriu as riquezas do lixo e dedicou-se a fazer arte com material reciclado. Logo teve sua arte reconhecida, e tornou-se um dos artistas plásticos mais reconhecidos do planeta e ganhou muito dinheiro.

Seria um lugar-comum se esquecesse de suas origens humildes e curtisse sua vida de novo- rico na terra do capital que reconheceu seu talento e regiamente o remunerou. Mas não foi assim a história. Procurando expandir sua arte, foi procurar inspiração no lixão do Gramacho, Duque de Caxias, e lá encontrou gente e lixo, lixo e gente do lixo. Tão misturados estavam os catadores de lixo de Gramacho que era difícil saber quem era o quê. Mas uma vez prevaleceu a sensibilidade do artista que fez do lixo a principal matéria-prima de seu talento. Fez também dos homens e das mulheres que trabalham na reciclagem do lixo seus principais parceiros.

O filme é uma obra de arte, onde Vick transforma lixo em riqueza e seres humanos desprezados por toda a sociedade, em verdadeiros artistas da vida. Há passagens de uma filosofia tão rica em pessoas tão simples e analfabetos que nos leva à convicção de que a verdadeira sabedoria está na simplicidade da vida.

Um artista que vai aonde o seu povo está e faz desse povo protagonista de sua história é uma reflexão muito rica para quem vive num mundo marcado pelo egoísmo e falta de solidariedade. Daquele lixão, o maior do planeta, surgiram os mais belos lírios da espécie humana. Poetas, escritores, filósofos, leitores de a Arte da guerra e do Príncipe, de Maquiavel. Achados no lixo, serviram para ilustrar mentes antes vazias, que esperavam apenas um gesto de solidariedade e esperança.

Extraordinário não é apenas o lixo, mas o filme que leva esse nome, e nos apresenta uma rica constatação de que a única fórmula da felicidade reside na solidariedade e na valorização do homem, que respeita seus limites e reconhece suas qualidades, dando oportunidades para que os artistas, profissionais, pensadores ali existentes engrandeçam o nosso país. Obrigado, Vick Muniz, por sua arte e lição de solidariedade.

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, é membro da Associação Juízes para a Democracia

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