AS NOVELAS DE ONTEM E DE HOJE.

26/02/2016 01:22:00  
As novelas de ontem e o choque de hoje
Cristina Padiglione
O Estado de São Paulo – Blogs
cultura.estadao.com.br

Não deixa de ser um choque assistir a novelas antigas no canal Viva e notar como éramos condescendentes com atitudes que hoje repudiamos de imediato.

O Viva mexe com a nossa memória afetiva e, mais do que isso, com na certeza de que nossos valores estão muito atrelados à evolução dos tempos e à tolerância social vigente hoje, muitas vezes omissa ontem.

Sabe quando a gente fica indignado com cenas de carro sem cinto de segurança? Pois é. É um clássico exemplo de como determinadas imagens eram aceitáveis, para não dizer normais, há muito pouco tempo, e hoje são capazes de chocar.

Sei que vou ser apedrejada por isso, mas, foi com certa surpresa que me vi agora diante de ‘Laços de Família’, novela de 2000, de Manoel Carlos, e me peguei, só então, compreendendo e aceitando (para não dizer concordando com) as razões do juiz Siro Darlan, que na época vetou a participação de menores no folhetim.

lacosdefamilia

Naquele tempo, a mídia (eu incluso) deu amplo espaço a imagens dos artistas tapando a boca, em protesto ao que chamaram de censura. Agora, revendo as imagens que motivaram a decisão de Darlan, percebo que, se fossem produzidas atualmente, as cenas em questão chocariam qualquer um de nós: a pequena criança no colo de Rejane Alves chora desesperadamente enquanto a “mãe” fictícia bate boca histericamente com seu “pai”, Luigi Barricelli. E chora, a criança. Como chora! Não há cortes que apontem para um possível trabalho de edição, a pequena de fato está em prantos.

Ainda que se diga que o choro foi reforçado na mixagem do áudio, o que não parece ser o caso, posso assegurar que aquela sequência hoje só seria feita com um boneco. O ser inanimado estaria no colo da mãe, de costas, durante o bate-boca do casal. E algumas imagens com a criança de verdade, que na época tinha 2 anos, seriam inseridas em quadro na hora da edição, para dar veracidade à criatura.

CRIANÇA CHORANDO

Durante A Teia, série policial de alta tensão vista há dois anos na Globo, a pequena Ninota era verbalmente torturada pelo personagem de Paulo Vilhena.

Papinha, ou Rogério Gomes, o diretor, teve o cuidado de cortar imagens de close da menina nas situações de maior pressão, para montar uma reação espantosa na edição. Muitos cortes foram feitos, também, para que, pausa por pausa, a equipe pudesse reforçar à menina que toda aquela história era de mentirinha.

No caso de Laços, a criança está para lá e para cá, no meio da discussão de pai e mãe, como moeda de chantagem entre os dois. Na época em que Darlan vetou crianças em cena e a exibição da novela só após as 21h, até almoço em Brasília, com Fernando Henrique, então presidente, foi marcado, com Vera Fischer representando a Globo. Ou seja, não só crianças choravam de verdade em cena, como o lobby acontecei à luz do dia, sem reações mais intempestivas.

É como assistir a crianças pulando de um banco para o outro, no carro, de trás para frente, cena muito comum na série Mad Men, que se passa na década de 1960. O enredo de Don Draper, aliás, tem várias passagens feitas para chocar um público que hoje se acha muito civilizado, mas que pensava bem diferente há muito pouco tempo.

Numa dessas, Betty e Don levam as crianças para um piquenique no parque. Ao final, a matriarca sacode a toalha sobre a grama, lá deixando todos os restos de embalagens consumidas pela família. Isso, fora cigarro, a qualquer hora, em qualquer lugar, inclusive dentro de hospitais e consultórios médicos, na cara das crianças, até era normal, por quenão?.

O aceitável de ontem já não é tolerado.

Oxalá, como disse Gregório Duvivier em sua última crônica, a gente possa se chocar com situações que, mesmo incomodando, ainda são aceitáveis hoje, em especial no que diz respeito a racismo e sexismo. Será?

Esta entrada foi publicada em Opinião. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.