SÓ VINGANÇA,VINGANÇA,VINGANÇA AOS SANTOS CLAMAR!

Só vingança, vingança, vingança aos santos clamar!

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e membro da Associação Juízes para a Democracia.

 

                        Lupicínio Rodrigues já cantava em sua dor de cotovelo sua ânsia de vingança. O espirito de vingança tomou conta de nossa sociedade de uma forma desumana. Já não se fala do espirito cristão de compreensão, misericórdia e perdão. Tudo se resume na vingança, que volta a ser a finalidade maior da pena aplicada pela justiça. Poucos são os que querem discutir alternativas na busca da paz social. O investimento na prevenção para evitar os danos que os crimes causam não entram na pauta de prioridades. Nietzsche afirmava que um homem cheio de ódio e sentimento de vingança acaba carregando consigo um sofrimento crônico, um envenenamento tão mais intenso quanto maior for seu sentimento de impotência, de fraqueza vital.

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                        Quando aparece alguém com um discurso restaurador das relações humanas é torpedeado por frases de efeito que o qualifica como defensor de bandidos. Ora é tão cristalino que ninguém é favor do crime ou de criminosos que é uma afronta à própria inteligência dos que assim pensam. O que precisa mudar é a mentalidade ultrapassada por diversos processos civilizatórios da Lei do Talião do ”olho por olho, dente por dente”. O clamor por justiça nesses casos se transforma em máscara por um desejo de vingança.

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                        Os métodos modernos de resolução de conflitos têm apontado maior eficácia quando o criminoso é levado a assumir a responsabilidade pelo crime praticado e busca a redução dos danos causados às vítimas através da restauração das relações. Foi esse o método escolhido para restabelecer a paz na Colômbia. Após anos de mortes de ambos os lados, busca-se o restabelecimento da paz que não foi compreendido pelo povo colombiano que a rejeitou em referendo popular. Já vivemos essa experiência quando após longo período de exceção constitucional aprovamos a anistia para ambos os lados.

                        O perdão coletivo e mútuo operou a pacificação da sociedade brasileira. Ainda hoje há os que não concordam e reclamam que devia ter havido punição para os crimes praticados pelos golpistas de 1964 e outros que reclamam a punição para os que resistiram à quebra da ordem legalmente estabelecida. O fato é que graças à anistia conquistamos a volta ao regime democrático. A ideia de fazer justiça contemporânea aproxima-se cada vez mais do desejo de “fazer pagar”. Essa não é a melhor forma de pacificar a sociedade e resolver os conflitos, por isso estamos multiplicando cada vez mais as ações no judiciário.

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                        É preciso que tenhamos a coragem de dar o salto civilizatório rasgando essa teia que nos prende aos sentimentos negativos e como afirma Nietzsche “atrair para fora da mentirosa toca e que a vingança que ocultais jorre da vossa palavra “justiça”. Pois que o homem seja redimido da vingança: é esta, para mim, a ponte que conduz à mais elevada esperança e um arco-íris após longos temporais”.

 

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