Mensagens de esperança.

 

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e membro da Associação juízes para a democracia.

 

Gosto muito de cinema, mas quando a mensagem é positiva a diversão fica muito mais prazerosa. Dois filmes me chamaram a atenção pela reflexão que o tema nos induz: Pantera negra, que é uma bela novidade nas telas quando os protagonistas negros são mostrados na sua essência humana, em igualdade de condições, não como escravos, ou serviçais e sim super-heróis capazes de produzir desenvolvimento e progresso para a humanidade.

O outro filme me deixou impactado por se passar na Flórida, um dos estados da nação mais rica e poderosa do planeta e mostrar os problemas delicados por que passam as mães carentes que têm que cuidar dos filhos com total ausência do sujeito masculino, que só se faz presente no momento da concepção. O filme mostra como uma mãe, aparentemente negligente, cuida de sua filha com muito afeto, mas em razão de seus problemas sociais, não tem apoio familiar, desempregada e isolada, não tem como dar à filha uma vida de criança.

A criança, muito esperta, consegue seguir os caminhos eleitos pela mãe para sobreviver, ora pedindo, ora enganando as pessoas, ora praticando pequenos delitos. Mesmo assim ela não deixa de ser criança e cria suas brincadeiras possíveis e faz amizades liderando sua turma de crianças que vivem numa “favela” ao lado da Disney. O filme “Projeto Flórida” mostra que o “sonho americano” não alcança a todos e mesmo ao lado da Ilha Disney da fantasia há pobreza, dor, abandono e tristeza para crianças que sonham por um mundo que garanta a elas o direito de ser criança.

Vale a pena ver o filme, mas não posso me furtar a analisar o paralelo que se pode fazer com as nossas crianças, cujas mães pobres e abandonadas pelos pais se esforçam para educar seus filhos vivendo em comunidades onde o ambiente é totalmente hostil aos cuidados com a infância. Falta de políticas públicas como saneamento básico, escolas de qualidade e em horário integral, creches, cuidados com a saúde e locais adequados para brincar, levam essas crianças a uma maturidade precoce e indesejada quando buscam sua própria sobrevivência como pedintes, vendedores ambulantes, aviõezinhos do tráfico de drogas, ou cometendo pequenos delitos.

Ver esses fatos na telona de uma produção de Hollywood sem refletir sobre a vida sofrida de nossas crianças e sem pautar que tanto a personagem criança Moonee quanto sua mãe Halley só mudam de nome nas comunidades do Rio de Janeiro, beira a insensibilidade e egoísmo próprios das pessoas que vivem em outro mundo diferente do de seus semelhantes. Quando vemos a diferença de nossa zona sul (Disneylândia) das demais áreas da cidade, fica fácil compreender porque tantas crianças procurar se divertir e buscar a sobrevivência no paraíso mais próximo.

O caminho seria partilhar os mesmos cuidados que temos com as nossas crianças com aquelas que anseiam por seus direitos de ser criança ao invés de levantarmos o muro do preconceito que faz com que alguns olhem para aquelas crianças como inimigas a serem combatidas, isoladas e exterminadas. O aplauso a ação bélica das forças armadas intervencionistas serve para mostrar como estamos no caminho errado da integração e do respeito mútuos. Crianças que são educadas e criadas para serem inimigas das outras porque são diferentes, pobres ou têm dificuldade de socialização serão crianças amamentadas pelo ódio que alimenta nosso apartheid social e impede que alcancemos a paz com solidariedade e justiça.

 

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