O BOM PASTOR

O Bom Pastor.

Siro Darlan de Oliveira, desembargador do Tribunal de Justiça e membro da Associação Juízes para a Democracia.

 

Domingo foi dia do Bom Pastor e o padre Frei Jesus, diretor do Colégio Santo Agostinho começou sua reflexão trazendo um tema muito preocupante. Indagava porque países antes celeiros de vocações religiosas, como Itália, Espanha e Portugal estava reduzindo tão drasticamente o número de fiéis católicos? Esse fenômeno está ocorrendo em todo mundo. Quais seriam as razões? Frequento essa mesma Paróquia há mais de 60 anos, fui aluno bolsista do Colégio Santo Agostinho numa época em que havia mis de duas dezenas de padres espanhóis administrando o colégio e a Igreja. Hoje são pouco mais que meia dúzia.

As missas ficavam lotadas, tanto que a tradicional Igrejinha do Leblon foi ampliada para o grande templo que atualmente ocupa a esquina da Ataulfo de Paiva com José Linhares e as missas de hora em hora, ficavam lotadas com muita gente em pé. O Evangelho fala sobre o Bom Pastor que conduz as suas ovelhas. É possível que essa fosse a melhor analogia para se falar da necessidade de seguirmos o ensinamento de Jesus, mas nos tempos modernos tudo que não se deseja é ser rebanho dócil e obediente. A juventude de hoje deseja ser protagonista de sua história e esse protagonismo será muito iluminado pelas mensagens cristãs e fraternas tão carentes na sociedade do ódio e da indiferença.

Essa pode ser uma das muitas respostas a esse êxodo nos templos católicos. Outras razões podem ser enumeradas. Enquanto as portas dos templos são cercadas de grades para evitar a proximidade dos mendigos, enquanto a eucaristia é negada aos divorciados, aos gays e as prostitutas, Jesus abraçava e integrava analfabetos, cobradores de impostos, prostitutas a seu apostolado. A Igreja é Universal e não deve discriminar ninguém, onde estão as mulheres católicas senão nos mosteiros orando e fabricando hóstias e não contribuindo na administração da messe? Onde está o povo negro que não ocupa lugares de destaque na hierarquia da Igreja Católica?

Diante desse iminente ocaso, providências devem ser tomadas para abrir o Livro do Evangelho a todas as criaturas, sem reservas ou preconceitos. Os excelentes colégios católicos precisam ser democratizados e acolher negros e habitantes da periferia para que todos tenham acesso à essa excelente educação de qualidade. Eu mesmo sou um dos raros beneficiados por essa benesse, pois tive o privilégio de estudar de graça no Colégio Santo Agostinho. Daí porque meu coração vive inquieto como inquieto era o coração de Santo Agostinho, cuja conversão festejamos no dia 23 de abril.

Minha gratidão é imensurável, mas meu dever de colaborar para manter viva essa chama acesa pelo ideal cristão é muito maior. Temos um Papa que vive intensamente essa máxima de “Amar o próximo como a si mesmo”, mas nem todo Pastor tem a mesma liderança. O silêncio de Dom Orani Tempesta diante do assassinato da líder comunitária e ativista dos direitos humanos Marielle Franco não passou despercebido. A ausência de Sua Eminência nos funerais, nas manifestações de pesar ou um simples manifesto de dor aos familiares deixou a orfandade mais dolorida.

A ausência de uma missão apostólica mais incisiva nas comunidades empobrecidas, nos presídios e nos hospitais, e até mesmo nos cemitérios. Hoje achar um sacerdote para encomendar uma alma é quase uma loteria, ou tem que ser muito amigo do padre para obter essa graça. As Igrejas não podem ficar cercadas de grades para impedir a aproximação dos pedintes. Assim agiram os apóstolos que foram admoestados ao impedir que as crianças se aproximassem de Jesus. As Igrejas devem ser a referência para os pobres e desamparados. Porque há crianças nas ruas se ás obras de misericórdia são: Dar de comer a quem tem fome; Dar de beber a quem tem sede; Vestir os nus; Dar pousada aos peregrinos; Assistir aos enfermos; Visitar os presos e Enterrar os mortos? Porque as Igrejas não lideram campanhas para socorrer os necessitados? Porque não abriga os sem teto e sem-terra?

É Frei Jesus, sua reflexão me fez viajar longe. Mas é minha contribuição para atrair para Cristo os que estão debandando. A volta há de ser trilhar o caminho difícil, mas feliz da fraternidade e solidariedade.

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