Juventude sem partido.

 

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e membro da Associação Juízes para a Democracia.

 

A visita que fiz à Escola da Fundação Darcy Vargas, onde conversei com 100 alunos, todos moradores do Morro da Providência, durante duas horas despertou-me para a necessidade de dialogar e ouvir melhor esses jovens. Trata-se de uma Escola de ensino integral e gratuita e os adolescentes demonstraram uma necessidade de diálogo e de transformação de suas realidades que me deixou muito animado. Lembrei-me que há um projeto tramitando no Congresso Nacional que apregoa um ideário de Escola sem Partido.

 

Não é de hoje que se tem medo do conhecimento democratizado para todos os níveis sociais. No passado, para manter o predomínio do machismo, proibiam-se as mulheres de frequentar as escolas. Depois as classes operárias durante muitos anos foram impedidas de frequentar bons colégios. Posteriormente, com a transformação do conhecimento em moeda com o fortalecimento das escolas privadas destinadas às elites, aos pobres foram destinadas as poucas horas de ensino burocrático das escolas públicas, onde os professores são mal remunerados e sacrificados com cargas horárias escorchantes.

O ensino no sistema penitenciário tem sido negado porque o conhecimento que liberta é considerado perigoso para o processo de regeneração dos apenados que não interessa ao sistema que prefere mantê-los excluídos na ignorância do que investir em sua recuperação pela educação. Daí a resistência do sistema para a implantação da remição da pena pela leitura que propicia ao preso resgatar 4 dias de pena por cada leitura de um livro.

Enquanto países modernos saíram de um estágio de miséria e pobreza investindo maciçamente na educação de seu povo, aqui os políticos apostam na existência de uma escola sem o pensamento para manter os mestres do ensino sob sua batuta autoritária, obrigando-os ao uso de uma viseira para mantê-los sob cabrestos. É evidente que essa prática tem como origem em nossa formação histórica, de sociedade marcada pelo estigma escravocrata e colonizador, de uma classe dominante que incorporou em seu DNA essa marca do autoritarismo e exclusão dos considerados indesejados.

Em recente decisão contestável e combatida por todas as associações o órgão nacional de controle dos magistrados baixou um provimento visando calar os juízes brasileiros na contramão do que disse a Ministra Carmen Lúcia, presidente do STF e desse mesmo Conselho, que em seu discurso de posse afirmara que “cala a boca, já morreu”. Quem pode ter medo do diálogo e da dialética do esclarecimento? A quem interessa privar o povo das luzes do conhecimento?  Em sua crônica “O Alarme”, Luiz Fernando Veríssimo adverte sobre o alto preço pago pelos judeus que estando integrados à sociedade alemã na época não se deram conta dos sinais que culminaram com os horrores do Holocausto.

Resta-nos, pois, resistir a toda forma de investimento no atraso e na ignorância do povo porque só através da educação e do conhecimento haverá desenvolvimento e libertação.

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