JORNALISTAS PERSEGUIDOS.

JORNALISTAS PERSEGUIDOS.

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e membro da Associação Juízes para a democracia.

 

O direito à livre manifestação do pensamento é o corolário de uma sociedade civilizada e não se pode abrir mão desse direito fundamental. Nas ditaduras e nos regimes de exceção a primeira coisa que fez o autoritarismo foi calar os jornalistas ou os manietarem, quando não cooptarem. Ao longo de nossa história republicana, foram muitos os jornalistas sacrificados pela manifestação de suas opiniões. O jornalista Carlos Lacerda teve sua vida ameaçada por denunciar o que considerava atos lesivos ao interesse público. Sorte melhor não teve o jornalista Vladimir Herzog que foi brutalmente assassinado pela ditadura militar ao colocar sua máxima preocupação com o sofrimento dos outros.

Entrou para a história o caso do jornalista e deputado Marcio Moreira Alves que após pronunciamento no plenário da Câmara do Deputados contra atos da ditadura, teve seu mandato cassado, e perseguido e jurado de morte teve que partir para o exílio. O jornalista Alexandre von Baumgarten após escrever sobre uma operação de tráfico de urânio do Brasil para o Oriente Médio, foi misteriosamente assassinado. Nos últimos onze anos, segundo o site Comunique-se portal, mais de trinta jornalistas foram assassinados no Brasil, sendo o maior número o de radialistas.

Além dessa violência física, sofrem os jornalistas outros tipos de violência, marcadamente em face da centralidade das empresas de comunicação que dominam o mercado no Brasil, e, em razão desse poderio econômico e político impõe relações de trabalho e exigências editoriais que tolhem a liberdade de produção intelectual dos profissionais da comunicação social. A escravidão dos profissionais para os senhores feudais que representam as editorias impede toda e qualquer criatividade, assim como cerceia a liberdade de diversidade de opiniões sobre o mesmo fato. Impondo-se a ditadura dos interesses financeiros, publicitários e políticos dos proprietários das redes.

Causou espanto a violência sofrida recentemente pelo jornalista Antony Garotinho que foi preso em pleno ato jornalístico sem qualquer manifestação das Associações de defesa dos jornalistas, cujo silêncio deu margem a uma conivência com essa violência praticada. Sem entrar no mérito dos motivos que geraram a prisão, o fato de ter sido impedido de finalizar o programa que então apresentava no rádio, mas tendo em vista a gravidade das denúncias que o jornalista estava fazendo, fica no ar uma pergunta que precisa ser respondida. A quem interessava silenciar Garotinho? Porque sua prisão em ambiente de trabalho, que goza do mesmo princípio da inviolabilidade, não podia esperar que o programa terminasse?

Portanto é imprescindível que a palavra seja garantida aos profissionais da mídia com responsabilidade e os excessos sejam apurados e responsabilizados. Com a palavra a Associação Brasileira de Imprensa quanto a essa violência sofrida por um profissional do jornalismo.

 

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Independência da Magistratura, um direito do povo.

Exma. Sra. Presidenta da AMAERJ,

 

Ante ataques que o site G1, a GloboNews e outros noticiários da empresa familiar do grupo Globo tem desferido contra decisão judicial e seu prolator solicito a V.Exa. que essa associação promova ato de desagravo ao magistrado atacado.

 

Telejornais da Globo tem apontado como causa do conflito na Rocinha a soltura de “Rogério157” por decisão unânime da 7ª Câmara Criminal, em março de 2012, na qual foi relator o desembargador Siro Darlan.

 

Um membro do Ministério Público entrevistado disse que “… nos causa espécie que essas pessoas sejam colocadas em liberdade com argumentos jurídicos”.

 

A mídia com sua sanha punitiva pretende substituir os juízos a serem formulados pelos magistrados com base na racionalidade da ordem juridica e no alegado e provado.

 

A magistratura não pode viver o assaque de setores que não têm compromisso com o Estado de Direito.

 

Claro que o jornalista que publica e alimenta sua emissora com tais aleivosas circula nas dependências deste tribunal e nele obtém informações por práticas que tangenciam as intrigas palacianas e as transforma em notícia.

 

Antigamente existiam os “repórteres de polícia”, que andavam em camburão, ajudavam a torturar presos e em alguns casos até participavam de execuções, como no caso do “Cara de Cavalo”.

 

Hoje, o jornalista Eduardo Tchao frequenta dependências do Tribunal de Justiça e sua foto de perfil no Facebook foi tirada dentro de dependências do Tribunal (vide foto). É o repórter de justiça! Assim como não era ilegal repórter tirar foto dentro de camburão, também não é ilícito tirar foto dentro de tribunal. Apenas retrata “os porquês” de cada qual.

 

O conflito na Rocinha é mais profundo e faz parte de um plano de agentes da polícia de entregar aquela área ao Comando Vermelho, que é centralizado, hierarquizado e de melhor acerto. Trata-se de organização preferida, por se ter com quem negociar diretamente, com vinculação de todos os membros da estrutura do comércio ilegal.

 

Não se trata de defesa pessoal do magistrado, com quem se pode ter ou não simpatia. Mas, de defesa da prerrogativa da magistratura em dizer o direito com independência, sem sujeição a tais assaques midiáticos.

 

Precisamos promover o ato de desagravo “EM DEFESA DA INDEPENDÊNCIA JUDICIAL” e como forma de preservar o perímetro de segurança aos magistrados para desempenharem suas funções sem temor de retaliações. Associação é para isto!

 

Publiquei no sábado p.p. artigo que trata do tema e autorizo sua divulgação.

 

Sem mais,

 

Damasceno.

Decisão judicial deve ser discutida em sede de recurso

 

Em razão da crise de segurança na Rocinha, órgãos de imprensa têm trazido à tona liminar de habeas corpus de 2012 concedida pela 7ª Câmara Criminal do TJ-RJ, em favor de Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157.

A AMAERJ defende a independência judicial da magistratura, garantia fundamental do Estado Democrático de Direito. Decisão judicial, monocrática ou colegiada, deve ser discutida em sede de recurso.

 

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Senhor Comandante da Policia Militar do Estado do Rio de Janeiro

Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro
GABIENETE DO DESEMBARGADOR SIRO DARLAN DE OLIVEIRA
PRESIDENTE DA SÉTIMA CÂMARA CRIMINAL

Senhor Comandante da Policia Militar do Estado do Rio de Janeiro.

Na qualidade de Presidente da 7ª Câmara Criminal sirvo-me do presente para que sejam tomadas as providências cabíveis quanto as informações elencadas na reportagem do Jornal o Globo e também reproduzida nos sites da internet e canal de Televisão do mesmo conglomerado comunicações nos dias 18 e 19 de setembro de 2017, nos quais consta que Sr. Major da PM Ivan Blaz, teria, segundo trecho da reportagem que transcrevo, declarado, “in verbis”:
“- Blaz também criticou a decisão judicial, que colocou em liberdade dois protagonistas da guerra entre traficantes na Favela da Rocinha. Ele afirmou que afirmou que os “criminosos que são reiteradamente colocados em liberdade” prejudica o trabalho da PM.
— Não posso deixar de falar que a Polícia Militar já fez a sua parte aqui na Rocinha contra essas quadrilhas que estão brigando, em 2010, quando prendeu os dois protagonistas dessa ação na invasão ao Hotel Intercontinental. Infelizmente eles foram colocados em liberdade por entenderem que não eram um perigo para a sociedade, e os resultados a gente está vendo hoje — afirmou, em entrevista ao telejornal RJTV, da TV Globo.
O major se referia às prisões de Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, e Ítalo de Jesus Campos, o Perninha, liberados pela 7ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio. Rogério mandou executar Perninha – que teria sido o escolhido por Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, para tomar o poder na comunidade. Perninha e Rogério foram dois dos dez homens que participaram da invasão ao Hotel Intercontinental, em agosto de 2010, e fizeram reféns hóspedes e funcionários” (grifos meus).
Registre-se, que no Jornal Nacional da Rede Globo de Televisão, em rede nacional, reprisou a entrevista do Sr. Porta-Voz Major Ivan Blaz no qual foi dado destaque ao seguinte trecho:
“O major lamentou que traficantes envolvidos na invasão tenham saído da cadeia. “Infelizmente, eles foram colocados em liberdade por entenderem que eles não eram um perigo para a sociedade. Os resultados nós estamos observando hoje”, disse. Como se pode verificar em “http://g1.globo.com/…/tropas-federais-no-rio-nao-impedem-gu…”.
Cumpre esclarecer, que a declaração se encontra longe da verdade dos fatos, porquanto a simples leitura da decisão referida na reportagem demonstra que a fundamentação que culminou com a concessão da liminar e posterior concessão da ordem, por unanimidade, na sessão de julgamento realizada em 13 de março de 2012, tendo votado os exmos. Des. Sidney Rosa e Marcia Perrini, e, registre-se, sem qualquer recurso do Ministério Público, nos autos do processo 0059571-14.2011.8.19.0000 foi por patente excesso de prazo, causado pelas sucessivas ausências dos policiais miliares arrolados como testemunhas em que pese devidamente intimados nas audiências de instrução processual em Primeira Instância, vide pastas digitalizadas 2610 e 2670 nos autos do processo 0059571-14.2011.8.19.0000.
A bem da verdade trago trecho do acórdão o qual, repito, foi acompanhado pelo voto de dois eminentes Desembargadores no sentido de conceder a ordem devido a patente excesso na prisão cautelar dos pacientes.
“ Na respectiva peça de impetração de fls. ‪02/14‬ instruída com os documentos de fls. 15/2489 sustenta o impetrante, em síntese, que os pacientes foram presos em flagrante e denunciados por suposta infração aos art. 148 do Código Penal, art. 35 da Lei 11.343/06 e art. 16 da Lei10.826/03, indicando que os pacientes se encontram presos desde agosto de 2010. Aduz a ilegalidade da prisão diante do excesso de prazo na instrução, sem que tenha previsão para o término do processo, tendo decorrido mais de 475 ( quatrocentos e setenta e cinco dias) dias desde a prisão dos paciente, requerendo ordem de soltura do paciente, com pedido liminar, para responder ao processo em liberdade. (…)
(…) Assiste razão ao impetrante, conforme se demonstrará.
(…) Ao nosso ver, o excesso de prazo para que seja entregue a prestação jurisdicional nos parece, com todas as vênias, evidente. Escapa ao critério da razoabilidade o manifesto excesso de prazo, estando o paciente custodiado desde 21 de agosto de 2010, portanto, preso ‪há 01‬ (um) ano e sete meses, sem que tenha findado a instrução.”
Portanto a assertiva “Infelizmente eles foram colocados em liberdade por entenderem que não eram um perigo para a sociedade” se referindo a decisão deste Órgão Julgador não coaduna com a verdade, e merece a devida retratação por parte dos responsáveis por divulgá-la, eis que ocorreu exclusivamente pelo excesso de prazo no curso do processo de Primeira Instância devido a sucessivos adiamentos pela não apresentação seja dos acusados seja das testemunhas devidamente arroladas.
Os valorosos e fundamentais serviços da gloriosa Policia Militar do Estado do Rio de Janeiro, não se podem prestar a “guerra midiática” de empresas que por interesses subalternos, muitas vezes buscam criar conflitos entre as instituições republicanas, distorcendo a realidade e no afã do sensacionalismo sem compromisso com a verdade e os ditames a lei, cria vilões buscando a manipulação da opinião pública contra aqueles que não se submetem a seus interesses ou de seus protegidos.
Os Magistrados bem como todos agentes do estado somos interpretes da lei e não podem se curvar ao dever maior da proteção dos direitos daqueles sob sua proteção de seu dever de ofício.
Ressalte-se, que para os Magistrados isentos e com verdadeiro compromisso com a Justiça e a paz social, nenhum processo pode ser julgado pelo nome que traz na capa, mas somente pelos fatos constantes nos autos que lhe são entregues para a decidir, com isenção e coragem, e efetivar a prestação jurisdicional que a sociedade tem direito, sendo certo que a prisão provisória de nenhum cidadão pode se perpetuar por tempo indeterminado sob pena de agredir mortalmente princípios colocados na Constituição Federal de 1988 após longos anos de arbítrio na luta pela redemocratização do País.
Como sempre me coloco a disposição para qualquer esclarecimento que se fizer necessário.

Siro Darlan de Oliveira.
Presidente da Sétima Câmara Criminal

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O ÓDIO É UM BUMERANGUE.

O ódio é um bumerangue.

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça e membro da Associação Juízes para a Democracia.

 

O uso de uma concessão pública para fins particulares é tão criminoso como o uso do dinheiro público para corrupção. A independência funcional, prevista na Constituição,  garante a um juiz decidir de forma livre e fundamentada. Como o direito não é uma ciência exata, pode haver divergências nas interpretações e nas decisões. Por isso o legislador foi sábio e previu as instâncias recursais e a fiscalização do Ministério Público, órgão imprescindível para uma república democrática porque acompanha todos os procedimentos judiciais e recorre quando deles discordar.

Passados cinco anos de haver relatado uma decisão judicial unanime de soltura de uma acusado que já estava preso há dois anos, sem uma decisão judicial, fui indevidamente julgado por um Tribunal Midiático despreparado que desconhece as regras do devido processo legal e se arvora em Juiz dos juízes. Esse procedimento costumeiro desrespeita os valores éticos e sociais da pessoa e da família, uma vez que induz os telespectadores e leitores a erros, além da utilização da noticia como mercadoria com fins de causar danos à imagem dos juízes e dos tribunais a que pertencem. Essa manipulação é altamente perniciosa a uma sociedade democrática e induz a opinião pública, impedindo a livre manifestação do pensamento aos destinatários da notícia.

A manipulação odiosa da notícia serve apenas para exacerbar o ódio na sociedade, justo num momento que que o Rio, ao promover um dos maiores eventos musicais do planeta, mostra sua capacidade de superação produzindo mais uma vez o Rock in Rio, levando ao povo sofrido a música, a poesia e o entretenimento. Maculando a imagem da Cidade Maravilhosa, como é de seu costume, as notícias enfatizam nossas mazelas ao invés de aproveitar para mostrar para o mundo que “mesmo com toda a fama…com toda a lama” o povo fluminense é capaz de superar todo esse furacão de más notícias e, “apesar de você”, (que apoiou a ditadura) “amanhã há de ser outro dia”.

Conta a fábula que um abutre buscava por más noticias para se alimentar e servir à causa de seus senhores. Destilava ódio contra aqueles que não exalavam o mesmo odor de seu bando. Esse ódio atingiu seus rins e ele ficou tão debilitado que suas asas ficaram fracas e sua companheira fugiu com seus bens pessoais deixando-o sozinho  triste. O ódio, que sempre volta para o agente, é o pior que pode acontecer em qualquer profissão já que o compromisso de todos é com o bem comum e a promoção de um mundo de paz e solidariedade. Cristo nos clama a perdoar aqueles que erram contra nós não apenas “sete vezes, mas até setenta vezes sete.” Vamos tentar, mas nossa humanidade nos impõe limites.

 

 

 

 

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A solidariedade dos médicos.

 

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça e membro da Associação Juízes para a democracia.

 

Quando tinha meus 12 anos costumava ser coroinha nas missas das 10 horas que Frei Vicente rezava todos os domingos na Clínica São Vicente, na Gávea. Li outro dia uma declaração do cardiologista, médico consagrado e dono da clínica uma declaração que me estarreceu. Disse Dr. Luiz Roberto Londres que o verdadeiro médico só com uma conversa tem 90% de chance para um diagnóstico correto. E que atualmente os médicos não mais examinam os pacientes, limitando-se a prescrever remédios e exames porque os laboratórios dão comissão para os médicos e os planos de saúde ditam as regras da atividade médica.

Essa denúncia, grave e corajosa merecia o mesmo empenho que o Ministério Público está dedicando ao combate à corrupção porque atinge a vida e a saúde de milhões de pacientes sujeitos a essa negociata ora denunciada. Mas não foi essa a grande notícia do Dr. Londres, e sim o movimento de solidariedade dos médicos que se dedicam através do Instituto Medicina e Cidadania a ofertar sua inteligência e trabalho aos mais necessitados. Além disso tem estimulado jovens médicos a essa prática solidária que ensina aos novos médicos a agirem com honestidade, transparência, dignidade, espírito de amizade e compaixão com os mais necessitados.

Hipócrates inspirou a criação desse serviço que cuida da saúde do ser humano e coletividade, sem discriminação de qualquer natureza. Por tanto o alvo da atenção de todo médico deve ser a saúde do ser humano em benefício do qual deve agir com todo zelo e o melhor de sua capacidade profissional. Esse exemplo de solidariedade já vem de longe de nossa história quando em 1562 o Padre José de Anchieta fundou a Santa Casa da Misericórdia no Rio de Janeiro, Portanto há 535 anos que médicos consagrados e renomados se dedicam a cuidar dos pacientes pobres gratuitamente.

Hoje com grandes dificuldades financeiras, a Santa Casa de Misericórdia ainda conta com os melhores médicos que dedicam seus serviços a esse gesto de solidariedade. Com uma história rica e exemplar, onde também são pioneiros nos cuidados com as crianças abandonadas do Brasil, inspiram a criação de outros serviços voluntários e gratuitos nesse momento de crise onde as maiores vítimas são os mais vulneráveis e pobres.

 

 

 

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Museu da escravidão e da liberdade.

 

Siro Darlan de Oliveira, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e membro da Associação Juízes para a democracia.

 

Há mais de cem anos foi abolida a escravidão no Brasil, mas seus efeitos ainda estão estampados na sociedade brasileira como uma tatuagem a lembrar o horror dessa prática. O holocausto, palavra que designa o extermínio dos judeus europeus durante a segunda guerra mundial é lembrado permanentemente através de eventos e museus espalhados por todo mundo como forma de preservar a memória e evitar que se repita.

Outro holocausto histórico que durou mais de quatro séculos é a escravidão e o sacrifício dos africanos que foram arrancados de suas nações de origem, separados de sua cultura, religião e família para atravessarem o Atlântico em condições adversas e cruéis para servirem de escravos para os colonizadores e a elite colonial. Se a escravidão foi abolida há mais de cem anos, suas consequências ainda clamam por justiça social e o açoite ainda se faz presente por ações e omissões do poder público e da sociedade que ainda destina ao pelourinho os descendentes desse povo tão sofrido.

A ausência de políticas públicas inclusivas e decisões judiciais nitidamente preconceituosas como os mandados de busca e apreensão coletivos e indiscriminados destinados aos guetos empobrecidos onde residem em sua maioria negros e pobres, demonstra que ainda não estamos libertos dessas práticas dos capitães do mato. Assim como fazem os irmãos judeus, está na hora de erguer um museu para coletar, preservar e lembrar as memórias dolorosas desse passado histórico tão vergonhoso para promover o estudo e o debate em torno desse tema tormentoso e evitar que ele continue frutificando em nosso meio.

A Casa da Cidadania que renasceu com a ação protetora de Joãozinho Trinta que acolheu nesse espaço as crianças e adolescentes remanescentes da Chacina da Candelária dando a eles abrigo, alimentação e educação. E, mais tarde a ação cidadã de Betinho que conscientizando a sociedade sobre a necessidade da solidariedade como instrumento essencial para matar a fome daqueles que clamam por alimentação, educação, cultura e justiça utilizando do mesmo espaço. Bem próximo está o Cais do Valongo, onde aportaram milhares de africanos arrancados de suas raízes para serem sacrificados pelos horrores da escravidão.

Ainda que não seja um resgate, pelo menos essa iniciativa de criar o Museu da Escravidão e da Liberdade pela Prefeitura do Rio de Janeiro no mesmo espaço onde tanto se exercita a cidadania, o Edifício Docas Pedro II, já é um início que prenuncia a necessidade de se resgatar essa dívida histórica e promover a integração social, democrática, igualitária e real de nosso povo, sem qualquer resquício do velho preconceito racial. MEL – Museu da Escravidão e Liberdade deve surgir para adoçar nossa história desse amargor que somos obrigados a levar como se fosse um pecado original a macular toda e qualquer tentativa de alcançar o marco civilizatório da igualdade, fraternidade e legalidade.

 

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O morro não tem vez.

O morro não tem vez.

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e membro da Associação Juízes para a democracia.

 

O aniversário de morte de Getúlio Vargas me fez meditar sobre o atual estado de perdas de direitos que estamos enfrentando na sociedade brasileira. Na magistratura se fala que somos a bola da vez porque estamos na berlinda do ódio dos políticos que se acham vítimas das ações do Ministério Público e do Judiciário. No operariado a tristeza de ver todos os direitos sociais conquistados sendo tungados pela ação legislativa que procura servir os interesses do capital. Se nós magistrados cochilamos quando do primeiro assalto aos direitos constitucionais e aplaudimos a derrubada de uma presidente honesta, devíamos saber que após um golpe permitido pelo judiciário conivente haveria mais o que perder.

No Rio de Janeiro, enquanto o judiciário continua deixando de ver e coibir os abusos policiais, o exército brasileiro, sagrada instituição com finalidades de proteção ao estado de direito e aos interesses da Pátria, é transformado em polícia para caçar os direitos dos habitantes das comunidades pobres e da periferia, sob o falso pretexto de caçar bandidos. Faz um papelão maculando suas tradições, pois além de deixar vazar suas operações são pífios os resultados da ação de polícia. Mas, não nos esqueçamos, todo esse abuso foi autorizado, ao arrepio da Constituição por uma juíza. O povo pensa que tudo que um juiz autoriza é legal e isso é um engano.

Mas quando derem voz ao morro, e parece que o povo das favelas já estão se organizando através da Frente Popular das Favelas – CUFA, toda cidade vai literalmente sambar. As ideias de respeito as diferenças étnicas, sociais, de gênero e de democracia crescem e espalham-se e empolgam as massas na luta pela reconquista da liberdade. A consciência do papel grandioso e importante das organizações do operariado, unirá novamente a população e ninguém poderá deter o retorno à legalidade, sem a crueldade e o cinismo das instituições que a tudo assistem passivamente como se não fizessem parte dessa mesma sociedade e como se não fossem também vítimas dessa ação escravocrata do povo trabalhador.

A resistência organizada e pacifica faz-se necessária para que através de um diálogo permanente e amplo possamos reverter essa política de poucos a dominar a maioria silenciosa, sacrificando milhões de homens e mulheres que não têm acesso ao processo educacional, a uma saúde que garanta o acesso de todos à propriedade como bem comum. Democratizar o processo de plantação e consumo com o direito às terras democraticamente distribuídas, sem que haja latifúndios improdutivos, nem a destruição da natureza pela cobiça dos monetaristas e materialistas. Esse é o ritmo que todo povo tem o direito de sambar: a igualdade dos direitos e acesso aos bens garantido a todos os brasileiros.

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LEIAM O QUE ACONTECE COM OS VALENTÕES QUE ATINGEM A HONRA ALHEIA:

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OS VALENTÕES DO FACEBOOK

Os valentões do Facebook.

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e membro da Associação Juizes para democracia.

 

A novela ensina como ser bandido, esconder armas, enganar a polícia e se dar bem. Nas redes sociais os valentões anônimos se aproveitam do biombo da telinha para assacar ofensas contra terceiros. Em 2015 fui injuriado no Facebook por um senhor que não me conhecia, assim como eu também nunca o havia visto. Como faço em todos os casos, processei-o criminalmente e poderia ter sido condenado a uma pena de 1 a 6 meses de prisão. O cidadão compareceu em juízo cabisbaixo, humilde e humilhado afirmando que o fizera como um desabafo. Proposta a retratação pelo magistrado, como não desejo o mal que ele me causou a ninguém aceitei, e ele desculpando-se ficou de se retratar publicamente pelo mesmo meio de comunicação onde me injuriou.

Católico que sou, e praticante, sofri muito ao ver no Facebook de um padre que não conheço uma frase caluniosa a mim dirigida. Claro que não vou deixar barato e, com muita tristeza por ver um sacerdote cuja missão apostólica e espargir o bem e as palavras do evangelho trair seu compromisso para ofender gratuitamente um irmão de fé. Também já distribui ação penal e cível, para que perante a Justiça repare o mal que me causou.

Uma parte, advogado em causa própria, também resolveu por meios impróprios me coagir com afirmações falsas e injuriosas. Apenas estou aguardando o desfecho de seu processo para exigir a reparação por tais ofensas.

Todos esses fatos, exceto o primeiro, tiveram origem após uma reportagem tendenciosa e falaciosa produzida com a intenção de me expor publicamente por uma emissora de televisão que não respeita a dignidade da pessoa humana e pensa que pode destruir impunemente a reputação daqueles que não rezam na sua cartilha. Certamente também será chamada a reparar mais esse dano, já que é reincidente em suas ações injuriosas e também na condenação por fatos semelhantes. Mas os fatos aqui narrados apenas demonstram os efeitos deletérios de reportagens direcionadas que empoderam pessoas ingênuas que tomam mentiras como verdades e passam a repeti-las irresponsavelmente. É bom que saibam que todo ato tem seu efeito e consequências antes de assumir como suas falsidades espalhadas por outrem.

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MEUS ÍDOLOS.

Meus ídolos.

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça e membro da Associação Juízes para a democracia.

 

O grande poeta Cazuza cantava que seus heróis haviam morrido de overdose. Saudosista conversava com meu filho Guilherme no dia dos pais e do aniversário dele, que é um artista do cinema, sobre a atual pobreza cultural dos novos tempos. Dizia orgulhoso que minha geração foi das mais ricas em cultura e esportes. Enumerei de memória apenas os grandes ídolos, ainda vivos que iluminaram a minha geração, quase todos com mais de setenta anos: Chico Buarque, Caetano Veloso, Roberto Carlos, Gilberto Gil, Baby do Brasil, Elza Soares, Gal Costa, Angela Maria, Elba Ramalho, Ney Matogrosso, Milton Nascimento, dentre outras feras da MPB.

Nas artes cênicas temos gente como a “imortal” Bibi Ferreira, Fernanda Montenegro, Tarcísio Meira, Gloria Menezes, Marcos Nanini, Tony Ramos, Lima Duarte, Antonio Fagundes, Tônia Carrero, isso para falar apenas dos vivos, já que entre os mortos há nomes ainda maiores nesse século culturalmente tão rico. Nos esportes, além dos grandes títulos mundiais conquistados coletivamente no futebol, no vôlei, na natação e no atletismo, tivemos Pelé, Garrincha, Zico, Marta, Rivelino, Paulo Cesar Caju, Gerson, Robson Caetano, Maria Lenk, Aurélio Miguel, Lars e Torben Grael, Ayrton Senna, Joaquim Cruz, Ademar Ferreira da Silva, Maria Ester Bueno, Oscar Schmidt, Gustavo Kuerten e Cesar Cielo. Hortência, Gustavo Borges. Que orgulho dessa geração!

Hoje vivemos uma pobreza política, social, cultural e ética que dá pena. Embora ainda tenhamos bons valores nos esportes e na cultura, não há comparação entre esses profissionais. O saudosismo é próprio dos que ficam velhos, mas é inegável que o século que passou nos trouxe muitas alegrias. Até mesmo na seara política, ainda que tenhamos testemunhado duas ditaduras, a de Vargas e a militar e empresarial, os políticos eram muito mais bem preparados, cultos e respeitados em sua diversidade e fidelidade partidária. Hoje os interesses particulares e corporativistas se sobrepões aos interesses coletivos da Nação e do povo sofrido.

Ulisses, Brizola, João Goulart, Magalhães Pinto, Paulo Freire, Darci Ribeiro, Luis Carlos Prestes, Juscelino não caberiam nesse Congresso pobre e que nos enche de vergonha. O único caminho capaz de restaurar esses valores é a valorização real da educação para motivar o nascimento de lideranças que coloquem o Brasil nos trilhos de uma grande Nação que investe no seu povo respeitando os direitos fundamentais e sobretudo promovendo uma melhor distribuição de rendas e acesso aos bens e serviços.

 

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