COLABORAÇÃO PREMIADA.

Colaboração premiada.

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e Membro da Associação Juízes para a democracia.

A sociedade do espetáculo está em festa. Foram 320 pedidos enviados pela Procuradoria Geral da República ao Supremo Tribunal Federal, com 83 pedidos de abertura de inquérito contra parlamentares e ministros de Estado e 211 indícios de irregularidade atribuídos a pessoas sem direito ao foro privilegiado. Embora todo cuidado dos órgãos de perseguição criminal seja necessário para deter a sangria dos cofres públicos, é preciso dizer que não há nesse rol nenhum criminoso que mereça antecipadamente esse título. São apenas investigações que estão sendo iniciadas se os indícios forem suficientes para que a autoridade judiciária autorize o início do inquérito.

Portanto é preciso ter muita cautela para que conduzidos por esse espetáculo midiático já sejam considerados culpados antes de julgados. Eu era juiz criminal em Bangu, e ao ouvir um preso que havia confessado na fase policial o crime que lhe fora atribuído, negou a autoria, indaguei a razão dessa negativa. Informou que na Delegacia Policial de Bangu fora torturado no então conhecido como “pau de arara”. No mesmo instante, dirigi-me à sede da delegacia e constatei a existência do aparato de tortura.

Modernamente esse aparato tem outro nome e não mais é praticado apenas pela polícia, mas em concurso com a autoridade judicial que decreta a prisão até que o preso confesse ou delate para receber prêmios por sua torpeza. Ora se houver interesse na incriminação de determinada pessoa, os agentes possuem ferramentas poderosas para apontar o dedo nessa direção com a colaboração prestativa daquele que, sob coação, está disposto a “colaborar” para receber suas “trinta moedas de ouro”.

Recentemente, recebi um comunicado da Procuradoria Geral da República informando que havia sido arquivada uma Sindicância onde se apurava que eu teria feito “um acerto no valor de dois milhões e meio de reais, para soltar a esposa de um chefe do crime organizado da cidade de Arraial do Cabo, presa recentemente em operação da polícia federal”. A princípio fiquei feliz com o arquivamento, mas muito assustado e apreensivo com a capacidade dessa máquina de moer gente de apontar o dedo com calúnias as mais graves contra pessoas que não lhe são caras.

 

Embora seja previsível que um juiz comprometido com os direitos e garantias constitucionais, diante de um ato arbitrário conceda a liberdade, quando a lei assim o exigir, nesse caso em comento, sequer havia atuado eis que o processo havia sido distribuído a outro julgador que mantivera a prisão e não concedido a liberdade, como a notícia caluniosa afirmara. Esse fato até então desconhecido, só tomei conhecimento do arquivamento, me deixou muito apreensivo com o que pode estar acontecendo no campo da vindita política nessas “delações premiadas” e, mais grave ainda no dedo oportunamente apontado para aqueles que desejam eliminar por razões de meras divergências de opiniões políticas ou doutrinárias. Acautelai-vos!

 

Publicado em Opinião | 4 comentários

CUIDADO VOCE PODE SER VÍTIMA DE CALÚNIAS!

Recebi esse comunicado da Procuradoria Geral da República informando o ARQUIVAMENTO  de uma Sindicância contra mim instaurada onde me atribuem um grave ato de corrupção em processo que jamais atuei e em favor de pessoas com as quais jamais tive qualquer relação ou conhecimento.

A princípio a noticia é boa porque afirma ter sido arquivado porque nada contra mim foi apurado, mas na verdade é uma péssima noticia porque confirma que estamos vivendo tempos de “caça às bruxas” quando se é acusado por pessoas irresponsáveis, que responderão por isso oportunamente, de fatos graves que sequer são de seus conhecimento. São tempos de macarthismo que coloca em jogo a honra de qualquer pessoa, sem qualquer precedente.

É preciso que estejamos atentos a todas as noticias que atribuem fatos criminosos a terceiros para não fazer juízo de valor precipitado. Ninguém pode ser julgado e condenado por uma notícia de jornal sem o devido processo legal e o mais amplo exercício do direto de defesa. O susto foi grande, mas serve de vacina que prepara para outros golpes covardes como esse.

Importante é não desistir nunca e Resistir sempre!

 

Publicado em Opinião | 1 comentário

FAMÍLIA CARCERÁRIA, POPULAÇÃO INVISÍVEL.

Família carcerária, população invisível.

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e membro da Associação Juízes para a Democracia.

“Sejam bem-vindos ao mundo daqueles que mesmo sendo, não são! Seres invisíveis, destituídos de certezas e buscando equilíbrio a cada parte da etapa cumprida, na tentativa de não submergir ao caos que é viver sem futuro. Esse é um minúsculo retrato da família carcerária, que povoa as portas das unidades prisionais deste país, na sua maioria, mulheres. Como caminhar neste terreno pantanoso que é o mundo das prisões? Como sobreviver a ela? Como manter o amor-próprio ante a negação contínua de respeito? Como retornar à vida livre resguardando um mínimo de autoestima? São respostas que buscamos no nosso dia a dia, para nos mantermos vivas, para chegarmos ao porto seguro que é a reorganização familiar pós-martírio”

Acabara de ler esse manifesto escrito por familiares de presos, quando leio nas páginas de O Dia que entre 2010 e 2017, 1149 presos morreram por falta de atendimento médico adequado nas masmorras que o Estado do Rio de Janeiro chama de Sistema Penitenciário. Ora a pena que a lei autoriza aplicar é somente a de privação de liberdade e nunca de privação da dignidade, e muito menos a vida. Se o cidadão em liberdade já tem dificuldades para ter seus direitos fundamentais respeitados, imagine o que não ocorre com aqueles que estão privados de liberdade.

Mas há um princípio em direito penal que é o de que a pena não pode ir além do agente que praticou o delito. O grito transcrito acima demonstra que esse princípio também tem sido vilipendiado pelo Estado brasileiro. Os familiares dos presos também são atingidos com atitudes de desrespeito e preconceito. A quem cabe por um fim nesse descalabro? Aos aplicadores das sanções que são também os fiscais do fiel cumprimento de suas sentenças. Recentemente o STF decidiu que os presos que sofrem sanções além daquelas fixadas por lei tem o direito de ser indenizados.

O Papa Francisco afirmou que é melhor ser ateu que fingir que acredita nos dogmas religiosos e viver escandalizando com ações nada cristãs. O mesmo se aplica aos juristas, magistrados e membros do Ministério Público que exigem o fiel cumprimento das leis daqueles que são denunciados e julgados, mas descumprem as normas constitucionais mais comezinhas decretando 42% das prisões provisórias, mantendo presos além dos prazos razoáveis e, o mais grave, mantendo as péssimas condições carcerárias à despeito das normas contidas na Lei de Execução Penais, que nunca foram respeitadas pelos estados da federação.

Esse é o verdadeiro escândalo a que se refere o Papa Francisco, o Estado Marginal punindo além dos limites legais os cidadãos que foram preventivamente marginalizados pelo desrespeito a seus direitos fundamentais e novamente punidos pelo Estado Juiz quando praticam atos ilícitos na busca de condições mínimas de sobrevivência.

 

Publicado em Opinião | Deixar um comentário

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA CARNAVALESCA.

Intolerância religiosa carnavalesca.

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e membro da Associação Juízes para a democracia.

 

Imagino o meu pastor Dom Orani, eleito prefeito da Cidade Maravilhosa e tendo que cair no samba porque o cargo de edil da Cidade onde o samba é a mais importante ferramenta cultural, o obriga a entregar as chaves da Cidade ao Rei Momo. É claro que todos desejaram que o Prefeito estivesse presente na abertura do ano letivo ministrando pessoalmente a primeira aula, mas não sendo possível, seu secretário de educação o representará. Seria um sonho se o prefeito, sendo ele um engenheiro, estivesse presente no lançamento da pedra fundamental de todas as obras realizadas na cidade, mas também pode ser representado por seu secretário de obras.

Ora, só uma grande dose de intolerância seria capaz de cobrar do Prefeito Marcelo Crivela que ele contrariasse seus conceitos religiosos para se fazer presente na maior festa popular do Rio de Janeiro. Ganhei dois cobiçados convites para o setor Um do Sambódromo. Ofereci ao porteiro de meu condomínio que gentilmente declinou do presente, afirmando que não iria porque é evangélico. Cumpri o meu papel de ser generoso e ele, o porteiro, fiel à sua crença educadamente recusou. Tenho que respeitar seus valores.

 

É verdade que o Carnaval é o carro chefe de nossa cultura. O momento mais democrático de nossa convivência social, já que os pobres se fazem reis, rainhas, e nesse carnaval muitos santos e santas, para que aqueles que podem pagar assistam e batam palmas para essa ópera popular de sonhos. É importante reconhecer que o elevado número de turistas movimenta a economia da Cidade, tão necessitada nessa época de crise.

Mas daí a exigir e criticar o Prefeito porque, coerente com sua fé, tudo fez, através de seus assessores e secretários, para que a festa fosse o sucesso que foi, com a ressalva dos acidentes ocorridos que não dependiam da administração municipal para se evitar. O carnaval foi lindo e um sucesso de público e de democracia com blocos tomando conta de todos os cantos da Cidade Maravilhosa. A coerência do Prefeito com sua fé em nada atrapalhou o brilho do carnaval. Tivesse ele atitudes fundamentalistas que fizessem com que seus dogmas religiosos influenciassem na realização da festa, aí seria outra história, mas isso não aconteceu. Ao contrário, muito bem representado por sua Secretária de Cultura Nilcemar Nogueira e do Presidente da Riotur Marcelo Alves a Cidade Maravilhosa realizou a maior festa popular do Planeta.

A vitória do Oscar por filmes que combatem o preconceito e a discriminação e a realização de um carnaval sacro e profano, demonstra que estamos prontos para essa reflexão social e coletiva na busca de uma sociedade mais justa e mais democrática. Mas há aqueles que apreciam a demagogia dos exibicionistas que fingem varrer as ruas ou beijam as bandeiras das agremiações, enquanto “ a nossa pátria mãe tão distraída, dorme, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”.

Publicado em Opinião | Deixar um comentário

A ARTE SUPERA O PRECONCEITO

A arte supera o preconceito.

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e membro da Associação Juízes para a democracia.

Na época em que direitos fundamentais são vilipendiados e vicejam os atos de preconceitos e intolerâncias. Projetam-se muros para separar fisicamente os intolerados de uma sociedade egoísta. A arte cinematográfica nos leva a uma reflexão obrigatória premiando o filme que retrata em um só roteiro vários tipos de intolerâncias. Arrebatar o Oscar de melhor filme demonstra que a sociedade está com sede e fome de justiça. Uma criança negra, pobre, filha de uma viciada em crack luta contra a solidão da descoberta de ser gay. Sem pai, com mãe doente e ausente, sofre bullying escolar e toda forma de violência.

Onde menos se espera, porque o ódio traça um perfil criminoso de comerciantes de certo tipo de drogas, enquanto tolera a venda de outras drogas socialmente aceitas, essa criança encontra a figura do pai ausente, que o acolhe a “adota” aconselhando-o e cuidando como de um filho. No momento em que o Presidente da Nação mais poderosa do mundo repete o discurso nazista, do povo perfeito que não pode se misturar e fecham suas fronteiras construindo muros físicos, políticos e policiais, um traficante e cubano demonstra com esse acolhimento toda riqueza que pode ter um ser humano independente de ser ou estar criminoso.

Sobre adoção, também outro filme vencedor, Lion, trata do tema com rara felicidade. Um casal de australianos que poderia ter gerado seus próprios filhos opta por adotar indianos, oriundos de um país superpopuloso e pobre. Ama-os igualmente independente de suas diferenças. Mais um exemplo que a arte nos dá para nosso aperfeiçoamento.

Chiron, negro, pobre, gay, filho de uma viciada foi o protagonista dessa história de amor e superação e venceu seus concorrentes com o talento de seu elenco investindo um valor irrisório diante das milionárias superproduções que não transmite com a mesma competência tanta sensibilidade. O Papa Francisco, contrastando com o ódio que alguns líderes políticos estão plantando no Planeta, diz o quanto é importante construirmos pontes. Esse filme construiu várias pontes para nos levar a união e o respeito a todas as nossas diferenças. Que sejamos capazes de aprender com a arte e façamos da ponte da tolerância um caminho de uma humanidade mais fraterna.

Publicado em Opinião | Deixar um comentário

TORTURA BLINDADA.

Tortura blindada.

 

 

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça e membro da Associação Juízes para a democracia

 

 

A instituição Conectas Direitos Humanos acaba de publicar importante pesquisa sobre a efetividade das audiências de custódia como instrumento de combate à tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos e degradantes no momento da prisão em flagrante. A pesquisa é rica em informações e encontra-se disponível no site www.conectas.org . As audiências de custódia, embora estejam previstas na Convenção Americana de Direitos Humanos, cujo artigo 7º afirma que “toda pessoa detida ou retida deve ser conduzida, sem demora, à presença de um juiz”. O Brasil ratificou o acordo em 1992, mas essa determinação foi ignorada por anos.

 

As audiências de custódia foram implementadas no país por iniciativa do Conselho Nacional de Justiça, que determinou a apresentação das pessoas presas em flagrante a um juiz em até 24 horas. A medida tem dois objetivos principais: evitar prisões ilegais e identificar abusos ocorridos no momento da detenção. Inicialmente foram implantadas nos estados de São Paulo e no Maranhão, estendendo-se depois para os demais estados do pais. Embora ainda não seja uma realidade em todo território nacional. No Rio de Janeiro, por exemplo, tal direito limita-se a ser respeitado na capital.

audiencia-custodia1

 

O que a pesquisa denúncia é a omissão do poder público, judiciário, ministério, público, defensoria e demais órgão de controle da polícia, que apesar de formalmente estar realizando as audiências, mantem uma postura omissiva diante da constatação de vários casos de tortura e maus tratos contra os presos. Chega mesmo a denunciar a existência de audiências de custódia fantasmas, ou seja, realizadas sem a presença dos presos.

lewandowski-presos-provisorios

Diante do caos em que se encontra o sistema penitenciário brasileiro, o terceiro maior do planeta, é imperioso que funcione o sistema de filtragem da legalidade das prisões para evitar que 44% dos presos sejam mantidos no cárcere sem o julgamento definitivo. A recente instituição de ferramentas como a delação premiada que agravam esse tratamento definido pela Convenção das Nações Unidas Contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes, em seu artigo 1º, como “qualquer ato pelo qual dores ou sofrimentos agudos, físicos ou mentais são infligidos intencionalmente a uma pessoa a fim de obter, dela ou de uma terceira pessoa, informações ou confissões; de castigá-la por ato que ela ou uma terceira pessoa  tenha cometido ou seja suspeita de ter cometido; de intimidar ou coagir esta pessoa ou outras pessoas; ou por qualquer motivo baseado em discriminação de qualquer natureza; quando tais dores ou sofrimentos são infligidos por um funcionário público ou outra pessoa no exercício de funções públicas, ou por sua instigação, ou com o seu consentimento ou aquiescência”.

 

Diante de narrativas tão impressionantes de violências perpetradas contra presos e presas colhidos durante a pesquisa, impõem-se estender o debate às Escolas de formação dos agentes responsáveis pela garantia de direitos e à toda sociedade como forma de cumprir as doze recomendações feitas pelos especialistas em direitos humanos em conclusão aos resultados da pesquisa realizada pela Conectas.

Publicado em Opinião | 2 comentários

INDEPENDÊNCIA OU MORTE DO DIREITO

Independência ou morte do direito!

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e membro da Associação Juízes para a Democracia.

A independência do juiz sempre fica em perigo quando o estado de direito está fragilizado. Essa é uma conquista do moderno estado de direito. Na Revolução Francesa, os juízes cooptaram à nobreza e foram os primeiros a serem “justiçados” pelos revolucionários. No Terceiro Reich, Roland Freisler tornou-se a expressão maior do justiçamento promovido por esse juiz no julgamento dos crimes políticos. Muitos magistrados cooperavam e se identificavam com os ideais de Adolf Hitler.

dire49o-01455236257

A garantia dos direitos fundamentais e naturais da pessoa, assim como o princípio da legalidade e da natureza cognitiva da jurisdição estão umbilicalmente vinculados à independência do juiz. E essa formação deve ser assegurada aos magistrados através das escolas da magistratura. Em ato recente, entendeu o novo diretor da EMERJ decretar a extinção de todos os fóruns de estudo e ao recria-los, deixou de fora justamente os de formação humanística como os de sociologia jurídica, psicanálise, história, cinema e saúde. No mesmo ato afastou todos os professores e magistrados de pensamento diferente do adotado pela nova direção. Ora, essa medida destinada a uma escola de desenvolvimento do pensamento livre é muito grave e preocupante.

Na mesma toada uma magistrada é censurada por haver concedido monocraticamente a liberdade de presos que já haviam cumprido a pena. Outros magistrados estão sob ameaça de punição por procedimentos judiciais ou comportamentais em desacordo com os ditames dos dirigentes do momento. A grande aberração é que a magistrada está sendo punida justo porque suas decisões fizeram justiça àqueles que injustamente continuavam encarcerados. É de saber geral que existem 250 mil presos provisórios no Brasil e nenhum responsável por essa ilegalidade foi censurado.

cms-image-000449993

Tanto um fato como o outro, a extinção dos fóruns de debate que levariam os magistrados a refletir sobre o atual e grave momento que estamos atravessando são sinais de alerta para o que estar por vir. Devemos ascender o sinal amarelo, porque diante desses indícios, os juízes e juízas que têm uma postura mais de acordo com as garantias e os direitos fundamentais e que se louvam dos princípios de maximização das liberdades e da excepcionalidade do poder punitivo estatal, amparando suas decisões nos princípios da presunção de inocência, do status libertatis, do devido processo legal precisam colocar suas barbas de molho, porque vem chumbo grosso por aí.

Todo cidadão quer ser julgado por juízes imparciais. Sob a tutela do terror e da perseguição, tal imparcialidade estará em risco permanente. Mas a palavra de ordem é resistir e ser fiel aos juramentos de cumprir e fazer cumprir a Constituição e as leis do país.

Publicado em Opinião | Deixar um comentário

FRENTE PELO DESENCARCERAMENTO

 

Frente pelo desencarceramento.

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e membro da associação Juízes para a Democracia.

 

No momento em que foi lançado, por iniciativa do CNJ o Comitê de Enfrentamento da Superpopulação Carcerária composta por membros do Judiciário do Ministério Público, da Defensoria Pública, da Ordem dos Advogados do Brasil, da Secretaria de Administração Penitenciária e do Conselho Penitenciário, também foi criada uma Frente de Desencarceramento por iniciativa de egressos, familiares, sociedade civil, Justiça Global, Pastoral Carcerária e outros agentes visando dar transparência às reais causas da superlotação dos presídios.

prisao2

Em boa hora e com uma motivação que muito mais que um simples “acidente pavoroso” é fruto de uma política cruel de encarceramento direcionada para uma camada da população predominantemente formada por negros e pobres que o sistema pretende se descartar por acharem que não são produtivos. Esse perfil é facilmente reconhecido pela maioria de prisioneiros brasileiros negros, analfabetos e pobres. Esse sistema de segregação direcionado tem o aval de grande parte da mídia e da sociedade, mas o principal instrumento é o judiciário, uma vez que não há um só prisioneiro que não tenha sido enjaulado sem ordem de um juiz. Claro que o Ministério Público, em sua grande maioria, também faz a aposta por essa via quando pleiteia prisões como solução para uma violência de que ela também é a causa.

Em recente publicação o Iser traz a colação o pensamento libertário de Dom Paulo Evaristo Arns que questiona a lenda que que o Brasil é um país da impunidade, ainda que tenha 700 mil presos e presas enjaulados em condições desumanas, sendo mais de 40% deles sem uma sentença condenatória, e dos quais 65% serão absolvidos, ou condenados a penas alternativas á de prisão. Questiona se é justo punir-se infratores da lei para coloca-los em lugares que não se respeita a Lei de Execução Penal. Vale a lei para o infrator, mas não se aplicam sanções ao Estado que desrespeita a lei.

prisoes superolotadas

Nessa oportuna reflexão é necessário pensar se o único caminho para fazer cessar a sensação de impunidade é a prisão quando a lei disponibiliza dezenas de outras modalidades de reparação mais eficazes e menos oneroso para os cofres públicos. Indaga-se porque o Estado não promove adequadamente a recuperação dos presos colocados sob sua guarda promovendo sua educação, atividades de esporte e lazer, além do preparo para o trabalho quando de sua libertação. Poucas são as unidades prisionais que promovem atividades laborativas e menos ainda as que promovem a leitura como formas de remir a pena de privação de liberdade.

presidio-do-roger

 

O que está em jogo é o tratamento respeitoso que necessita ter aqueles que desrespeitaram a lei, porque se são tratados com desrespeito no local onde são punidos responderão com a mesma moeda voltando a delinquir. Contudo nenhum esforço de mudança será eficaz se não houver uma mudança de mentalidade dos juízes que comodamente superlotam, sem qualquer consequência, o sistema penitenciário, abrindo mão de tantas outras modalidades alternativas de punir os que desrespeitam a lei.

Judge Pounding Gavel --- Image by © Guy Cali/Corbis

 

 

Publicado em Opinião | 1 comentário

POR ONDE CAMINHA A HUMANIDADE?

Para onde caminha a humanidade?

Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e membro da Associação Juízes para a democracia.

 

A desigualdade social que provoca violência e revolta, segundo anunciado em Davos, apenas oito pessoas detém um capital equivalente à soma do que teria a metade da população mundial. Em meio à crise social e financeira que estamos vivendo, certamente essa questão agravará e os mais frágeis serão os mais violentados. Isso já ocorre com os aposentados, sempre os últimos a receberem seus proventos e com os mais pobres que pagam cada vez mais tributos para sobreviverem.

frase-todos-pensam-em-mudar-a-humanidade-e-ninguem-pensa-em-mudar-a-si-mesmo-leon-tolstoi-105664

Ao que tudo indica, esse choque entre a democracia liberal e o capitalismo neoliberal trará ainda mais miséria para o mundo com a preocupação predominante dos governos com as finanças em detrimento do cuidado com o povo. O noticiário tem sido rico em violência contra as pessoas seja em países considerados civilizados, onde negros ainda são majoritariamente presos e assassinados, como na Europa, onde as nações que se serviram do colonialismo selvagem para o enriquecimento de seus tesouros, agora fecham as portas para imigrantes que fogem das guerras e do terrorismo, seja no Brasil onde os pobres têm sido vítimas de total ausência de cuidados na saúde e no respeito a seus direitos fundamentais.

humanidade criança

As desigualdades continuam a crescer no planeta e tem alimentado rixas e lutas de caráter social, xenofóbica, racismo, ultranacionalismo, rivalidades étnicas e religiosas, homofobias e todas as formas de paixões mortais. Enquanto isso as razões para esses novos conflitos não estão visando a salvação do Planeta nem a recuperação dos valores básicos como a família, a comunidade, a partilha e as relações com amor e simplicidade. Agora as pessoas estão dando preferência a competição desenfreada por mais dinheiro e por mais bens de consumo.

As virtudes como o cuidado, a compaixão e a generosidade perderam espaço para a crença de que ganhar é a única coisa que importa e de que ganhar – por qualquer meio necessário – é a única coisa certa a se fazer. A noção de humanismo que surgiu com o iluminismo do sujeito racional capaz de deliberação e escolha está sendo substituído pela do consumidor que se vê despersonalizado pelo poder midiático capaz de conduzir as pessoas a acharem certo o que eles, os donos da comunicação acham certo e errado o que lhes interessa com fins de aumentar o consume e o lucro.

renato_russo_a_humanidade_e_desumana_mas_ainda_temos_ch_0z786r

É preciso que aja uma urgente reação para promover as necessárias transformações para concretizar o mundo que sonhamos e para tanto é preciso investir numa profunda mudança de mentalidade em todos nós, homens e mulheres do século XXI. Temos consciência que o modelo político-econômico presente é o responsável por essas disparidades alimentadas pela ganância, pelo alto índice de corrupção e pelos interesses privados se sobrepondo ao bem comum.

 

Publicado em Opinião | Deixar um comentário

A CARA DO BRASIL COM JAIR MARQUESINE

A CARA DO BRASIL COM JAIR MARQUESINE.

 

 

 

Publicado em Opinião | 2 comentários